quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Mais do que ser uma pessoa conhecida, importa ser alguém que vale a pena conhecer (I)


    A atividade "Mais do que ser uma pessoa conhecida, importa ser alguém que vale a pena conhecer" tem subjacente uma intenção de valorizar a relação existente entre os diferentes intervenientes no espaço escola: alunos, professores e outros funcionários. Trabalhamos diariamente no mesmo espaço, mas será que conhecemos os interesses das pessoas com quem nos cruzamos todos os dias? Acreditamos que mais do que ser alguém conhecido vale a pena ser alguém que vale a pena conhecer e consideramos que muitos de nós temos conhecimentos e experiências que valem a pena ser partilhadas. Apresentámos esta ideia aos alunos de literatura portuguesa do 10ºano e estes revelaram interesse na sua dinamização. Trata-se de um projeto que ainda está no início, mas gostaríamos de o conseguir orientar nas diversas vertentes que se encontram ainda em esboço.

    A primeira entrevista foi realizada ao docente Manuel Carraça.

1- Quais são os seus maiores medos?
    Os meus maiores medos dizem respeito às pessoas de quem gosto mais. Para além dos medos “comuns” a todas as pessoas (doença, a sobrevivência com dignidade, etc.), sempre me incomodou o comportamento que se funda reiteradamente na irracionalidade e a procura validar/legitimar. Refiro-me ao medo de um mundo dominado por certas ideologias/crenças extremistas que têm certezas absolutas. As pessoas adotam muitas vezes comportamentos de pura irracionalidade, tribais (que estão sediados na nossa genética, nos nossos primórdios). O grupo, o “espírito da manada”, leva as pessoas a crerem que tudo o que for partilhado é legítimo/justificado. 
   Repare-se, por exemplo, no que o fundamentalismo religioso tem feito ao longo da história e continua a fazer. Escudarmo-nos nas crenças sem as questionar, é demitirmo-nos de usar a inteligência, o pensamento autónomo; é criar um refúgio espiritual para nos escondermos de nós próprios, da realidade mundana que nos incomoda, fechando os olhos (da inteligência) e não tendo a coragem/honestidade intelectual de os abrir. Existir assim é um faz de conta permanente. Porque a realidade incómoda, cria-se por conveniência outra, ficcionada, uma projeção extasiada dos nossos anseios, a que depois se presta culto, pois o criador reconhece-se na criação e acha-a perfeita. Entra-se assim num circuito recorrente que se alimenta de si próprio. É deste fenómeno que eu tenho medo, da violência cega que “age” em defesa de visões que escravizam e, como se sabe, aos escravos todas as perguntas lhes estão vedadas, pois limitam-se a obedecer. 
   Tenho muito medo de um mundo sem lei, sem ordem, porque quando isso acontece está tudo perdido. É assustador. Passo a vida a tentar convencer-me de que a ordem não cederá nunca à desordem; de que a lei da selva está definitivamente a perder terreno, mas não tenho a certeza.
   Mas pode também dar-se o caso de nos esperar um futuro dominado pela lógica cega de um mundo mecanizado, pós-humano, desumanizado, um mundo de “programas”, que faça de nós simples agentes de uma “Matrix”. São possibilidades que vejo. Isto para não falar do aquecimento global. Na verdade, estou a ficar cada vez mais pessimista (ou talvez menos inconsciente?).
2- Ainda se desilude? O que o desilude mais?
   Não sei, nunca percebi com nitidez se me desiludo ou se não gosto de constatar o que não quero, ou se estas duas coisas são a mesma. Sei que, por uma questão de sobrevivência, temos que criar expectativas e saber lidar com elas. Sei que a bondade, os valores que consideramos corretos, andam vezes demais (senão sempre) de mão dada com as conveniências/interesses. Quero dizer que todos cumprimos “honradamente” o nosso dever e agimos consoante valores reconhecidos quando isso não tem um custo alto, mas em última instância penso que quase todos, no limite, somos capazes de tudo. Se as pessoas podem amar também podem odiar. Sei isso e sei também que o homem consegue manter uma boa relação com o próximo até o eliminar.

3- Se pudesse mudar de profissão, mudava?
   Sim, mas dependia muito, claro, da outra profissão. Há muitas coisas na educação que me preocupam e que não consigo aceitar. Enfim, ser professor nos dias que correm é muito difícil, desgastante, especialmente para quem vive o que faz com intensidade.

4- Considera que vivemos uma crise de valores? 
   Há, por exemplo, uma escalada dos valores económicos em todas as áreas, uma escalada do poder dos mercados em relação à democracia e aos seus valores, …, uma certa confusão/mistura de valores e o que eles implicam (atividades, posicionamentos perante a vida e perante os outros, etc.). Em todo o caso, o que vivemos é a “desvalorização” de alguns valores e a “valorização” de outros, como sempre aconteceu. Os valores estão tão ativos e presentes como sempre estiveram pois não podemos ser animais racionais sem sermos morais, não se pode ser pessoa amoral. Ser pessoa sem valores é tão impossível como haver uma moeda só com um lado.

5- Qual a cidade/país que mais o marcou? Porquê?
   Lisboa. Pelas vivências que lá tive, porque é bonita, cosmopolita, do tamanho certo e está no sítio certo.

6- Quando olha para as novas gerações o que pensa?
   Penso, por exemplo, que mais do que nunca todos os jovens devem ter acesso a uma educação laica, baseada em valores universais e não em certos valores inspirados em visões particulares do mundo. Isto porque eu não concebo nem a liberdade, nem a dignidade, nem o progresso moral, sem essa educação. Ela é condição para evitar que os jovens sejam uma espécie de rebanho acrítico a fazerem a figura de “idiotas úteis” ao serviço de alguns. Há o risco da escola não estar a preparar os jovens para lidarem de forma sustentada com o nosso legado. 
   Os seres humanos são de facto os únicos animais que caminham sempre na corda bamba e agora mais do que nunca. Isto não só porque só nós precisamos de educação para sermos verdadeiramente, mas também devido a outros fatores. Note-se por exemplo a dependência quase total que as sociedades, as pessoas, têm da Internet, dos computadores, dos telemóveis, dos bens e serviços… se um dia houver uma falha a sério estamos de volta de um dia para o outro (especialmente nas grandes cidades) à animalidade. Lá se vão milhares de anos de “progresso” (que apocalítico que eu sou).

7- Como gosta de ocupar o tempo que tem livre?
   Gosto de ler e de trabalhar na minha oficina. Gosto de pensar em formas, de criar imagens mentais e realizá-las, esculpi-las, trabalhar a matéria inanimada, informe, extraindo-lhe formas. É o pensamento que se realiza, que se objetiva, que se torna visível na obra. Isso dá-me prazer. Gosto também de cuidar dos meus bonsais porque eles são seres vivos que eu posso esculpir sem os magoar, encaminhando-lhes a vida. A natureza trabalha intrinsecamente e eu de forma extrínseca, em harmonia. É a sensação de viver devidamente.

8 -Nascemos e morremos sós, tem medo de estar só, ou a solidão não o amedronta? 
   Claro que a solidão me amedronta. Eu preciso de viver em voz alta, dizer-me. A solidão é para nós contranatura porque somos seres que só nos realizamos com os outros. Ver-me só é sentir-me desamparado. A grande aspiração humana é o reconhecimento e isso só pode acontecer se o outro o fizer.  É o olhar do outro que nos faz e desfaz. Tudo o que somos devemos aos outros (é com eles que nos socializamos, que formamos o nosso eu, que aprendemos a falar, que apreendemos valores, …); se calhar somos apenas o que os outros dizem que somos, por isso o isolamento pode matar.

9- Hesitou em responder às nossas questões? 
   Não.

10- Fernando Pessoa disse: " Quando quis tirar a máscara, estava pegada à cara". Sentiu receio em dar a conhecer facetas da sua vida, ao falar connosco, que não eram conhecidas? Ou seja teve medo de tirar a máscara ou ela está agarrada à cara?
    Penso que não é possível tirar a máscara. Nós somos seres sociais e a máscara é uma máscara social, estamos sempre a ser autores dos atores, isto é, de nós próprios. O ator e o autor são difusos, são uma entidade a ser si mesma. Nós revelamo-nos com máscara, mascaramo-nos e desmascaramo-nos com ela; somos espetadores que se medeiam e sabem disso sem o poderem evitar. Fernando Pessoa (a Persona por excelência) tem razão: a máscara é a nossa condição, a nossa forma de ser, é a nossa “pele”, logo não a podemos tirar porque assim não seriamos.






Manuel Carraça

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